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sexta-feira, abril 27, 2007

Fragmentação versus convergência

Texto de Venício Lima, publicado ontem no site do Observatório da Imprensa.

Há algum tempo parece haver uma contradição entre a inevitável convergência tecnológica nas comunicações e a crescente fragmentação que tem ocorrido na pesquisa e na formação profissional do campo da Comunicação no Brasil.

É fato conhecido e estudado que a chamada revolução digital diluiu as fronteiras entre as telecomunicações, a comunicação de massa e a informática, provocando uma convergência tecnológica que está tendo repercussões importantes na economia política, na legislação e no amplo espaço de formação e exercício profissional do setor.

A própria definição conceitual do campo parece ser melhor expressa pelo plural comunicações que reuniria, numa única palavra, áreas hoje integradas que até há pouco tempo estavam diferenciadas pelas antigas tecnologias.

É no quadro de referência dessa convergência tecnológica que se postula a necessidade de um novo marco regulatório, de um novo modelo de negócios e, por conseqüência, de uma rediscussão das formas tradicionais de formação profissional – em boa parte ainda orientadas pela clivagem das antigas tecnologias.

Sentido oposto

Uma rápida panorâmica sobre o ensino e a pesquisa da Comunicação, no entanto, revela uma ausência de sintonia com o que está a ocorrer na economia política, na legislação e nas profissões do setor.

A principal entidade científica de Comunicação, a Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, inclui entre os objetos de seus núcleos de pesquisa conteúdos que vão desde a ficção seriada até o turismo e a hospitalidade.

Já a Compós – Associação dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, lista em seu sítio na internet cerca de duas dúzias de programas de pós-graduação surgidos no país da década de 1970 até hoje. Há informação de que, pelo menos, 25 desses programas estão em funcionamento. Talvez não seja exagero afirmar que a característica principal deles é a diversidade de seu conteúdo e de suas linhas de pesquisa, que vão da semiótica às tecnologias da informação.

Tanto os núcleos de pesquisa quanto os programas de pós-graduação em Comunicação padecem da ausência de uma "convergência" em torno de um objeto que os articule e os identifique como constituidores de um campo específico de estudo e pesquisa.

Os últimos anos assistiram também ao surgimento de diversas associações que reúnem pesquisadores em subáreas autodefinidoras de seus respectivos interesses e objetos de pesquisa: Sociedade Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor); Fórum Nacional de Professores de Jornalismo; Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Cibercultura; Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação e Política; e a Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura, que embora não seja exclusivamente brasileira, reúne pesquisadores brasileiros identificados com esta área.

Numa importante instituição de ensino e pesquisa – a Universidade Federal da Bahia – houve até mesmo a separação formal entre os estudos da comunicação e da cultura com a criação do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade. Esse foi um movimento, registre-se, em sentido oposto ao que deu origem ao importante Center for Contemporary Cultural Studies, na Inglaterra dos anos 1960, até hoje uma referência para os estudos do campo.

Políticas públicas

Claro que essa fragmentação revela o estado de efervescência do campo da Comunicação. Anualmente há um sem-número de congressos, encontros, seminários e, consequentemente, centenas de trabalhos e relatos de pesquisa podem ser apresentados e discutidos. Há novas publicações e novos sítios na internet dessas diferentes entidades e programas.

A primeira conseqüência desse quadro de fragmentação e ausência de identidade, todavia, aparece na qualidade da formação profissional que predomina na Comunicação. A revista Caros Amigos nº 121 traz longa matéria sobre o que pensam os estudantes brasileiros de jornalismo. A reportagem deveria servir de alerta não só para as muitas centenas de responsáveis pelos cursos de graduação em comunicação (jornalismo) – públicos e privados –, como para todos aqueles que se interessam pelo futuro do jornalismo no país.

Sem jornalistas com formação humanística sólida e consciência crítica, como avançar em questões – como, por exemplo, a credibilidade – com que se defronta o jornalismo brasileiro?

A segunda conseqüência, aliás já sentida faz tempo, é a impressionante ausência institucional dos programas e entidades de Comunicação do debate sobre as definições de políticas públicas por que passa o setor. Onde está a contribuição que anos e anos de estudo e pesquisa acumuladas têm a oferecer ao país?

Formação profissional e participação na formulação de políticas públicas são questões sabidamente complexas e polêmicas. Uma reflexão se impõe, sobretudo no momento em que se discute o futuro do setor e a sociedade brasileira precisa, por isso, da contribuição de todos para fazer avançar a democratização das comunicações.

É hora de cada um colocar na mesa o que tem e pode oferecer.

quarta-feira, abril 18, 2007

Ministro da Saúde abre fogo contra a publicidade



Se depender do Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, as campanhas publicitárias de bebidas alcoólicas e comidas industrializadas estão com os dias contados. Ou no mínimo, a linguagem das peças será imediatamente mudada.

No programa Roda Viva dessa semana, ao afirmar que "a estética dos comerciais só contribui para o aumento de doenças cardiovasculares", o ministro fez um ataque direto a publicidade. Segundo ele, as ações de comunicação de bebidas, fast-foods, comidas prontas e cigarro reduzem a qualidade de vida dos brasileiros, uma vez que estimulam o uso de bebidas alcoólicas e do tabaco, a má alimentação e o abandono de exercícios físicos. Ou seja, a publicidade contribui para a redução da prática de hábitos saudáveis, principalmente entre os jovens, fato que já gerou um grave problema de saúde pública no Brasil.

Para tentar reduzir os efeitos dessa publicidade nociva, Temporão afirmou que o Ministério da Saúde chamará a FENAPRO, o CONAR e os anunciantes para uma conversa.

Sem dúvida, a iniciativa é boa, mas faz-se necessário envolver a sociedade brasileira no debate, uma vez que não adianta eleger alguns produtos como inimigos número 1 da saúde e simplesmente proibir qualquer ação publicitária.

Em paises que reduziram a incidência de doenças cardivasculares, as experiência mostram que a troca de informações entre sociedade e governo foi fundamental para a melhoria da qualidade de vida da população. Ao que tudo indica, nada melhor que o investimento na boa e velha informação de utilidade pública, deixando para o cidadão decidir, conscientemente, qual produto deve consumir. Ou boicotar.

terça-feira, abril 17, 2007

Aprecie com moderação

Texto de Ruy Castro, publicado ontem na Folha de S.Paulo

Um dos motes mais instigantes da televisão pode cair nas próximas semanas, se a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) conseguir aprovar um pacote de restrições à publicidade de cerveja.

Esse mote é a frase "Aprecie com moderação", enunciada ao fim de comerciais em que dezenas de jovens eufóricos são mostrados tomando cerveja -imoderadamente- como se ela fosse o elixir da felicidade, do sucesso com as mulheres ou da própria vida eterna.

O autor do mote, seja quem for, conseguiu resumir em três palavras mais idéias que se contradizem e se anulam do que qualquer tratado de lógica saberia explicar. "Aprecie com moderação", referindo-se ao ato de tomar cerveja, pressupõe que cabe a você racionalizar sobre a quantidade adequada à sua "apreciação" do produto e parar de beber antes de se embriagar.

É fascinante, considerando-se que uma das funções de qualquer bebida alcoólica é justamente comprometer ou abolir a capacidade de racionalizar. É o que faz com que, depois de alguns chopes e julgando-se perfeitamente sóbrio, você dê 200 por hora no seu carro e o enfie no poste.

A frase pressupõe também que os bebedores são capazes por igual de exercer essa "moderação". Ela não prevê a existência dos alcoólicos potenciais -os compulsivos em geral, inclusive na bebida, e aqueles cujo organismo demora mais a acusar o álcool e dos alcoólicos na ativa, já dependentes do produto. Se esses bebedores fossem capazes de estabelecer um nível racional de "moderação", a indústria de cerveja teria quebrado há muito tempo.

"Aprecie com moderação" é uma cínica contradição em termos, tão flagrante quanto seriam frases parecidas aplicadas a outras atividades. Tipo: "Fume sem tragar". Ou "Aspire sem cheirar". Ou "Ejacule sem gozar".

quarta-feira, abril 11, 2007

Prêmio Leão Verde

A agência nova/SB lançou o Prêmio Leão Verde, que premiará com uma viagem para o Festival de Cannes a dupla criativa que convencer, por meio de anúncio, o presidente Bush a assinar o Protocolo de Kyoto e liderar uma guerra mundial contra o aquecimento global. Maiores informações no site - www.leaoverde2007.com.br



Contudo, o avanço dessa iniciativa não está na criação de mais um prêmio de responsabilidade social que prestigia o mercado publicitário. Sem dúvida, chamar a atenção das agências de propaganda para o dever de desenvolverem ações que focam a inserção de temas na mídia, a fim de ampliar o debate entre sociedade, imprensa e Estado sobre pautas de interesse público é o verdadeiro gol de placa que o prêmio da nova/SB pode marcar.

segunda-feira, abril 09, 2007

Marcos Coimbra cai de pau nessa historia de marqueteiros mandarem em politica!!

Democratas (!?!)
Texto do sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, publicado no Correio Brasiliense em 08/04.

Tem coisas na vida e na política das quais sinceramente, deveriamos todos ser poupados. Não são, sempre, importantes, mas nem por isso deixam de ser aborrecidas. Às vezes, até irritantes. A mudança de nome do PFL para “Democratas” é uma dessas coisas. O que se pode dizer sobre algo tão estranho?

Fomos informados pela imprensa que a idéia nasceu de uma pesquisa de opinião pública sobre a imagem do partido, que concluiu que ela estava “desgastada”, com “problemas”. Daí a proposta de mudança de nome. Simples, como se estivessem reunidos os executivos de uma empresa, que, quando ficam sabendo que as vendas andam baixas, aceitam a sugestão do gerente de comunicação e mudam o nome do produto.

Em minha profissão, ouvi muito (é verdade que menos de uns anos para cá) o protesto de políticos quando alguém (marqueteiro, assessor etc.) queria tratá-los assim, como “produto”. Com razão, insistiam no argumento que política é “outra coisa”, pois diz diretamente respeito à vida das pessoas e à sua identidade de cidadãos. “Coisificar” candidatos, governantes, parlamentares, idéias, era visto como fuga ao debate e ao enfrentamento, deixando-os no mesmo lugar das margarinas e das sandálias de dedo.
Os tempos passaram e os políticos foram ficando mais dóceis perante os ditames da sociedade de consumo. Mas nunca tinha visto algo como o nascimento do “Democratas”.

Usando imagem freqüentemente invocada nas discussões sobre os partidos, quando falamos que políticos costumam trocar de partido “como quem troca de camisa”, temos agora o caso de um partido que troca de nome com o mesmo espírito leve. Na mudança, muitas coisas vão pelo ralo: se a palavra “liberal” era tão importante quanto ouvimos dizer, para onde foi?

Depois de mais de 20 anos procurando divulgar propostas, argumentos e experiências de liberalismo, de dentro e fora do Brasil, assumindo com clareza que era esse o lugar que pretendiam ocupar no espectro partidário, por que suas lideranças escolhem a diluição de um nome que não quer dizer nada, porque quer dizer tudo? E quem acreditava nisso, como fica? Afinal, em pesquisas de opinião feitas durante o ano passado, o PFL sempre teve entre 2 e 3% de preferências, o que pode não ser muito, mas sugere que algo em torno de 3 milhões de eleitores terão que se identificar com o “Democratas” ou, então, procurar outro rumo.

É claro que já tivemos, em nossa história de proliferação partidária, muitas mudanças de nome. Às vezes por imposição, como no ciclo militar, às vezes para designar algo que surge de outros, por fusão, incorporação, divisão. Sempre para dar um nome novo a uma coisa nova. Mudar de nome, sem mudar nada, é a primeira vez.
Não me ocorre um só caso, em nossa evolução política, de partido designado por uma palavra comum. Todos se dizem “partidos”, no nome e na sigla, exatamente para mostrar o que são, ostentando o P maiúsculo, de maneira a que ninguém se confunda. Mais grave, nenhum havia procurado se apropriar de uma palavra que pertence a todo mundo. Democratas somos todos e não apenas os filiados da antiga Frente Liberal.

Será que alguém teve a brilhante sacada de que, com o nome novo, quando o repórter, o analista, tivesse que falar a respeito de um de seus integrantes seria obrigado a dizer “o democrata Fulano de Tal pensa, propõe....”? Depois de anos de críticas, muita gente passaria a ser, por um passe de mágica, “o democrata Sicrano”.
Como é pouco provável que qualquer outro partido tenha tanta criatividade, estamos poupados de lidar com o “honestos”, o “competentes”, o “sérios” e coisas do gênero. Já pensou o ridículo que seria o noticiário político?

Francamente.

quinta-feira, abril 05, 2007

O Poder das Estrelas

Click nas fotos para ampliá-las e assim, ler os gráficos.

ANGOLA

BRASIL

CHINA

COLOMBIA

SOMALIA

ESTADOS UNIDOS

UNIÃO EUROPÉIA

quarta-feira, abril 04, 2007

A Marinha do Brasil e a Amazônia Azul

Depois de 4 anos da propaganda publicitária (não está errado, é confuso, mesmo) que seguia a cartilha do Dudaísmo (filosofia criativa que contempla o politicamente correto e abusa dos jingles-clipes), a boa e velha linguagem Chapa Branca está de volta.

A Marinha lançou uma campanha comparando a costa brasileira à floresta amazônica. Ainda não deu pra definir se o filme pretende incentivar a preservação da nossa riqueza marítima, se quer divulgar a importância do transporte naval para a balança comercial do país ou se deseja provar que nossa esquadra ainda bóia. Com exceção das campanhas de alistamento (com o inesquecível slogan: “jovem, aliste-se”) não me lembro da última campanha da instituição.

Acho o conceito legal, porque é absolutamente digerível por qualquer expectador. Apesar disso, a confusão de intenções sugere que um brainstorm de almirantes aconteceu na reunião entre o cliente e a agência. Destaque para o áudio. A trilha é nova, mas o locutor é o de sempre, o mesmo que anunciou a chegada das caravelas.

O que é isso Rede ¨Grobo¨???

No Jornal Nacional, frequentemente assistimos matérias denuncistas sobre a devastação ambiental no Brasil.

Aí vem a Globo é cria um anúncio de péssimo gosto para aumentar a audiência dos capítulos finais da minissérie Amazônia.

Tudo em nome da audiência. Esse anúncio não merece comentário!!!!!!!!!!!



TEXTO - Amazônia: assista antes que acabe. / Não perca os capítulos finais da saga de Amazônia.

segunda-feira, abril 02, 2007

Feijoada Completa agora com caipirinha

O Feijoada Completa tem, felizmente, ampliado sua abrangência. Pela falta de espaço para o debate ou pela relevância do tema, esse forum de discussão sobre a comunicação pública tem recebido contribuições de todos os tipos. Dos comentários postados às sugestões de pauta, da rede de informação ao bate-papo com amigos, tudo tem melhorado o conteúdo apresentado aqui.

A partir de hoje, o Feijoada Completa tem um colaborador oficial. Seu nome é Anderson Zanin, publicitário, redator e roteirista, com alguns anos de experiência em comunicação governamental. Atualmente, trabalha na Câmara dos Deputados, como assessor de imprensa.

domingo, março 25, 2007

Franklin Martins. Esse é o cara!

Esse é o cara. Foi a escolha mais acertada na nova reforma ministerial. Tenho certeza que o Presidente Lula está no caminho certo para realmente democratizar a comunicação do Governo.

A história política do Brasil mostra que Franklin Martins é um profissional de comunicação que reconhece o processo de educação política de população como ferramenta de inclusão e transformação social.

Por isso, acredito que administrará a comunicação governamental buscando a conformidade com o interesse público, resgatando a mobilização social, o debate público e o diálogo com a sociedade brasileira.

Ampliar à todos os brasileiros o acesso a informação de utilidade pública sobre as ações e políticas públicas de governo. Essa é a função cidadã da comunicação governamental.

Segue entrevista do novo ministro.

Por KENNEDY ALENCAR da Folha de S.Paulo, em Brasília, dia 24/03

O jornalista Franklin Martins, 58, futuro ministro que comandará as áreas de imprensa e publicidade do governo, diz que esses "guichês serão separados".

"As empresas de comunicação no Brasil, de modo geral e em sua maioria, são empresas sérias. Não aceitariam misturar os guichês. Eu sou uma pessoa séria e não aceito misturar os guichês."

Fala, porém, que a imprensa "não está numa redoma" e "será criticada sempre que avançar o sinal". Na sua visão, isso ocorre quando a mídia "pretende puxar a sociedade pelo nariz para um lado e para o outro".

Indagado se o governo incentivaria a criação de órgãos de imprensa simpáticos, como prega o PT, diz: "Não cabe ao governo plantar, regar e colher veículos de comunicação simpáticos a ele".

Prega a criação de uma rede pública de TV, dizendo que ela não deve funcionar com lógica comercial. Afirma que o governo fará indicação inicial de diretoria, mas sem partidarismo. "Senti na conversa com o presidente que é TV pública e não estatal. Plural e não partidária."

Defende encontro entre Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para que se mantenha agenda comum nacional que quase se perdeu na crise do mensalão devido a "luta política" entre PT e PSDB. A agenda tem cinco pontos: democracia, estabilidade monetária, responsabilidade fiscal, crescer com distribuição de renda e combater a exclusão social.

"Os dois precisam conversar. Seria muito bom para os dois e para o país, mantendo as opiniões e divergências. Cada macaco no seu galho. E, do seu galho, cada um pode conversar com o outro."

O novo ministro manterá o processo contra o jornalista Diogo Mainardi, da revista "Veja", porque ele o acusou de crimes. "Fiz o que se faz em qualquer estado de direito." Diz que tratará a Globo profissionalmente, empresa da qual foi demitido após o episódio Mainardi. "Quem olha para trás vira estátua de sal."

Diz ter "orgulho" de ter combatido a ditadura militar de 1964. "Lutei do lado certo." Com olhos marejados, demonstra emoção ao falar desse assunto. "Vivi na clandestinidade cinco anos e meio. Vivi cinco anos e meio no exílio. No entanto, não vivo mais na clandestinidade. Muita gente que torturou e matou é clandestina até hoje, até para a sua família", afirma.

Indagado a respeito do que achava hoje de o manifesto dos seqüestradores do embaixador americano Charles Elbrick defender a matança de torturadores e carrascos da ditadura, afirma: "Naquela época, quem fizesse oposição ao regime estava sob o risco de ser preso, torturado e morto. Eram outras circunstâncias, circunstâncias de guerra".

Imagina que seria negado um pedido de visto de entrada nos EUA devido à sua participação no seqüestro de Elbrick, ação de um grupo formado por militantes de duas organizações guerrilheiras, a Ação Libertadora Nacional e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que seqüestrou o embaixador americano para forçar a ditadura a libertar 15 presos políticos, entre os quais José Dirceu, hoje ex-ministro da Casa Civil.

"[O visto] É uma questão secundária. Tanto os Estados Unidos quanto eu sobreviveremos a esse detalhe", diz, num tom bem-humorado.

Franklin acumulará a função de secretário de imprensa com a de ministro até indicar um substituto para o cargo hoje exercido pelo jornalista André Singer. Para porta-voz, nomeará alguém de fala "concisa". Convidou o jornalista Eugênio Bucci a permanecer à frente da Radiobrás e aguarda resposta. A seguir, a íntegra da entrevista dada em sua casa, em Brasília, na tarde de sexta-feira:


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Folha - Por que o presidente o convidou?
Franklin Martins - A idéia do presidente é passar para a sociedade a idéia de que deseja ter uma relação de comunicação forte, mais intensa e mais profissional. Simbolicamente, ao chamar um profissional como eu, quis passar essa idéia. Comunicação é falar e ouvir. Não é só falar.

Folha - Lula é criticado por ter dado raras entrevistas coletivas no primeiro mandato.
Franklin - Isso correspondeu a um momento. O presidente tem dado entrevista quase todo dia, falando ao final dos eventos.

Folha - Mas foge ao formato de coletiva e às exclusivas em que pode haver o pingue-pongue entre entrevistado e entrevistador.
Franklin - Cabe o formato de coletiva, que não é para se fazer todo dia. O presidente fará uma coletiva em breve. E cabem essas entrevistas de saída de eventos em que dará a palavra do presidente sobre o assunto do dia, o que é fundamental para os jornalistas. E cabem os formatos de conversas com jornalistas e entrevistas para órgãos de imprensa. O presidente terá uma comunicação muito mais intensa e profissional.

Folha - E por que o sr. aceitou?
Franklin - Um pouco de vaidade com essa coisa de ser ministro. Gosto de desafios. Profissionalmente, estava no auge da minha carreira. Comentarista respeitado, prestigiado junto aos colegas e às fontes. Mas, no fundo, queria fazer coisas novas, diferentes. Tem a ver com as circunstâncias políticas do país. Passamos por uma crise política extremamente dura, selvagem em alguns momentos, e estamos saindo dela. Foram cometidos erros de lado, do governo e da imprensa. O povo brasileiro demonstrou maturidade. Quis a apuração dos fatos. Mas também olhou e disse: eu também quero que o país continue a melhorar, a enfrentar os seus problemas reais. Não vamos confundir disputa política com solução dos grandes problemas nacionais".

Isso baixou a intoxicação do debate político. Na campanha, quando os candidatos subiram de tom, tiveram queda nas pesquisas. O recado era "menos, gente".

Lula venceu com grande vantagem, demonstrando que a opção do eleitor não foi fortuita. Mas o eleitor disse: "Não quero perder os avanços que nós temos devido a luta política tumultuada".

Folha - Não foi só luta política. Houve escândalos de corrupção sérios. Houve o dossiegate. O sr. acha que a imprensa exagerou?
Franklin - Falando ainda como jornalista, não como ministro, a imprensa cumpriu um papel importante no primeiro momento da crise, forçando a realização das CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito). De certa forma, pautou os primeiros momentos. Trouxe à tona o caixa dois, os recebimentos de dinheiro por parlamentares. Entretanto, a partir de determinado momento, era preciso avançar e responder a uma questão crucial que eu repetia como um mantra nos comentários: "De onde veio o dinheiro do valerioduto?" Por quê?

Essa resposta permitiria que a investigação desse os passos seguintes. Hoje, não contamos a história. Há a suspeita. Evidente que o dinheiro do valerioduto foi para maior número de parlamentares do que o apontado pela CPI. O dinheiro havia sido aplicado para financiar troca de partidos, uma hipótese bastante plausível. Por que a CPI não quebrou o sigilo desses parlamentares? Não houve da parte da CPI esse interesse. E a imprensa não fez uma investigação independente para saber de onde veio e para onde foi o dinheiro do valerioduto, o que permitiu que o processo ficasse apenas com aparência de discurso político.

A partir de um determinado momento, a imprensa parou de pautar a CPI e passou a ser pautada pela CPI. Prevaleceu não a investigação, mas o discurso. E a população percebeu isso e se afastou, o que é ruim, pois nos afastou de conhecer melhor e mais o que aconteceu.

Folha - Colocar numa mesma pasta a verba publicitária do governo e a relação com a imprensa não traz o risco de tentativa de manipulação política da mídia?
Franklin - Traz. Viver é muito perigoso, como dizia Guimarães Rosa. Risco sempre existe, mas não é um risco novo. Em todos os Estados da Federação, é assim. No governo federal, sempre foi assim. Já tivemos casos em que o porta-voz do presidente [diplomata Sérgio Amaral no governo FHC] era também quem controlava a verba de publicidade. E não houve nada demais.

Folha - No segundo mandato, FHC separou as funções. E Lula as deixou assim no primeiro mandato.
Franklin - O Sérgio Amaral controlou a verba de publicidade e isso não resultou em coisa escusa, malandragem. Não houve nada.

Folha - Separar publicidade e imprensa não é uma fórmula mais imparcial?
Franklin - A maioria esmagadora dos recursos de verba publicitária é das estatais. O governo não controla. As campanhas de publicidade do governo têm uma dimensão política e técnica. Vou indicar alguém da minha absoluta confiança, íntegro e com conhecimento do mercado de publicidade, com experiência de trabalho executivo, para cuidar da parte técnica. Serei responsável em última instância.

Na dimensão política, deve-se discutir qual o sentido da campanha que o governo realiza ou vai realizar. Se há dúvidas sobre um programa social do governo ou uma medida do governo, talvez caiba uma campanha para esclarecer melhor. O acompanhamento da mídia é fundamental para sentir, por exemplo, se há dúvidas sobre o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Colhe-se isso também na relação com a imprensa, que expressa as mais variadas posições da sociedade. Uma eventual inflexão da propaganda poderá esclarecer tais dúvidas.

É um conceito de unificação da comunicação do governo, não é para misturar dois guichês. Os guichês serão absolutamente separados. As empresas de comunicação no Brasil, de modo geral e em sua maioria, são empresas sérias. Não aceitariam misturar os guichês. Eu sou uma pessoa séria e não aceito misturar os guichês. O governo é sério e não aceita misturar os guichês.

Folha - Concorda com as teses do PT de que é preciso democratizar os meios de comunicação? Acha que deve ser estimulada a criação de veículos de comunicação simpáticos ao governo, dando-lhes financiamento oficial direto ou indireto?
Franklin - Essa questão de democratização dos meios de comunicação é uma fórmula na qual cabe tudo. Sou a favor, óbvio. Quanto mais democrática e plural a circulação de idéias na sociedade, melhor. Mas não cabe ao governo plantar, regar e colher órgãos de comunicação simpáticos a ele. Quem cria órgãos de comunicação é a sociedade. O governo tem uma função na relação com a imprensa: garantir a liberdade de imprensa. Ponto. O resto é a sociedade quem faz.

Folha - A rede pública de TV não corre risco de virar uma nova Radiobrás ou TV Voz do Brasil? Ela é necessária?
Franklin - É necessária. A intensidade com que essa discussão surgiu mostra que o país estava precisando discutir isso. Em qualquer discussão que se inicia, as posições, às vezes, vêm truncadas. Esse processo ajuda a avançar. O governo não pretende criar uma TV do governo, estatal. Mas estimular, fazer crescer e dar forma a uma rede pública de TV.

Folha - Com qual formato em termos editoriais, de gestão e de financiamento?
Franklin - Não vai funcionar guiada pela questão comercial. Isso coloca limitações para uma série de TVs que necessitam adquirir uma determinada escala de audiência e respondem a estímulos comerciais porque são empresas que visam lucro. Essas TVs privadas não podem entrar em determinadas áreas, fazer determinadas programações, que são importantíssimas.

Folha - Mas não é importante ter audiência?
Franklin - É importante. Estou falando de escala de audiência. Não tem obrigação de concorrer para liderar o horário nobre. Na Inglaterra, na época em que fui correspondente, havia duas TVs públicas, BBC 1 e BBC 2, e dois canais privados, ITV e Channel Four. A BBC 1, com programação mais educativa, competia com o Channel Four. A BBC 2, com a outra, que tinha programação mais comercial. A BBC 1 tinha audiência de seis e sete pontos, o que é um índice bom. Essa situação ajudava a melhorar o padrão de produção de todas as TVs.

Os mecanismos de gestão e de financiamento devem ser discutidos e feitos com base na experiência exitosa de outros países e aqui, como a TV Cultura, por exemplo.

Folha - Quem vai escolher a diretoria?
Franklin - Evidentemente, a escolha inicial parte do governo. Mas o governo não precisa escolher os partidários do governo. Não existe ainda um formato definido. A discussão ainda não está madura. O que senti na conversa com o presidente é uma TV pública e não estatal. Plural e não partidária. Aberta para contribuição e presença das diferentes identidades regionais e não com uma programação de uma cara só. [Deve ter] programação variada, com jornalismo, com parte cultural voltada para cidadania.

Isso é diferente da Radiobrás, que tem um papel que deve continuar, funciona como uma agência noticiosa do governo. Nesse aspecto, a gestão do Eugênio Bucci foi importante, sem caráter de chapa branca. Tanto que convidei-o para permanecer na Radiobrás. E ele ficou de me dar a resposta.

Folha - O governo deverá colocar recursos vinculados, haverá possibilidade de corte no orçamento dessa rede pública?
Franklin - Honestamente, ainda não tenho idéia. O governo vai ter de botar verba. Há discussões se vale a pena trabalhar com patrocínio privado, como existe na TV Cultura. Não publicidade comercial. Os modelos de financiamento e de gestão devem ser discutidos. Será bom para o Brasil ter uma TV pública.

No Brasil, a gente se assusta com tudo que significa mudança, modernidade e novidade. Depois, descobre que é muito bom. Não sei por que o Brasil se assusta com a possibilidade de ter uma BBC.

Folha - As primeiras reações de parte dos veículos privados têm sido de reticência.
Franklin - Foram reações próprias de um debate inicial. Editoriais, como os da Folha, criticavam a TV do governo, mas, se for uma TV pública, a coisa muda de figura. Podemos discutir. Isso é parte do debate político. Estamos saindo de um momento muito tumultuado de disputa política. Passou a ser óbvio, de entrada, desqualificar a outra posição para não ter que entrar no mérito da discussão.

O que mais quero como ministro da comunicação social é ajudar a qualificar o debate político, o debate público. Liberdade de imprensa não é só informar, mas também qualificar o debate público. Fazer com que se exprimam as diferentes posições da sociedade, que se choquem, e a sociedade escolha a melhor.

Pode haver gente tão a favor da liberdade de imprensa quanto eu, mais a favor não tem. Meu pai foi jornalista e preso na ditadura Vargas por não aceitar o autoritarismo. Eu passei a minha juventude lutando contra a ditadura [militar de 1964].

A liberdade de imprensa é o nome que se dá ao direito de a sociedade ser informada.

Folha - Como diz o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, a Constituição deseja que a imprensa seja livre, não determina que seja justa.
Franklin - Isso. Quando a imprensa não é justa, ela paga um preço. Não é o Estado que paga. Paga pela crítica feita a ela pela sociedade. A imprensa também não está numa redoma. O presidente pode ser criticado, o ministro pode ser criticado, o papa pode ser criticado, a imprensa pode ser criticada e será criticada sempre que avançar o sinal. Quando ela avança o sinal? Quando vai além do trabalho de dar informação, de fazer circular a informação e de aumentar o debate público. Quando pretende puxar a sociedade pelo nariz para um lado e para o outro. Essa não é uma função da imprensa.

Folha - O sr. identifica veículos que avançam sinal hoje?
Franklin - A sociedade pode fazer essa crítica. Não sou eu quem devo fazer. Evidente, nesse período de crise, teve gente que se comportou de uma forma, teve gente que se comportou de outra. Dentro de nossas redações, há jornalistas que foram mais longe. Eu sempre disse que seríamos julgados pelo nosso comportamento, o que é positivo, não é ruim. A imprensa sairá melhor e já está saindo melhor dessa crise do que entrou. Como o governo está saindo melhor do que entrou. A crítica é o que faz pessoas crescerem desde que elas consigam perceber o que fizeram de errado. E quem critica a imprensa e muda a imprensa é a sociedade, não é o governo. Não é o leitor. O leitor de um jornal pode até estar gostando desse jornal. Mas o debate na sociedade pode levar aquele leitor a perceber que não era bem assim.

Folha - Como ministro, o sr. manterá o processo contra o jornalista Diogo Mainardi?
Franklin - Vou manter.

Folha - Por quê?
Franklin - Não estou fazendo nada contra a liberdade de imprensa. Manter o processo contra esse senhor não tem nada a ver sobre o que eu penso ou o que ele acha que eu penso. É um direito que ele tem. Isso não discuto. Entrei com processo contra ele porque ele me acusou de crimes. Me acusou de ter praticado tráfico de influência e de ter participado da quebra de sigilo do caseiro Francenildo Costa.

Fez essas acusações sem nenhum elemento. Mais do que isso, ele e a revista dele ["Veja"] se recusaram a publicar a minha resposta, a minha explicação. Que liberdade de imprensa é essa na qual um lado fala e sequer publica o outro lado. Fiz o que se faz em qualquer estado de direito. Quando acha que sua honra foi atingida, recorre à Justiça. Quem pode definir se essa honra foi atingida? Eu? O colunista da revista? Não, a Justiça. No processo, peço que seja publicada a minha resposta e peço reparação por danos morais.

Folha - Como ministro, não ganhará mais peso esse processo em seu favor?
Franklin - A Justiça não vai agir assim porque sou ministro. Pelo ritmo no Brasil, a Justiça só terá julgado esse processo depois que eu deixar de ser ministro. Ele terá toda a oportunidade de provar que todas as acusações de que cometi crimes são verdadeiras. E, se for isso, quem vai ficar mal sou eu.

Ele também pode, se quiser, dizer: "Eu errei. Volto atrás". Mas hoje em dia pega mal para ele. Acho que dificilmente o fará. Não vou abrir mão de defender a minha honra da única forma num estado de direito, que é ir à Justiça.

Folha - Esse episódio foi determinante para o seu afastamento da função de comentarista do "Jornal Nacional" e da saída da Rede Globo?
Franklin - Não. Eu já havia deixado de ser comentarista do "Jornal Nacional". A direção da TV Globo chegou à conclusão de que deveria tirar toda e qualquer opinião do jornal porque ele era basicamente informativo.

Folha - E em relação à saída?
Franklin - Fiz essa pergunta à direção, e eles disseram que não. A alegação que me deram é que eu estava com imagem fraca como jornalista, muita gente não me conhecia. Eu disse a eles que achava que a explicação não me convencia. A pergunta tem de ser feita à TV Globo.

Folha - O sr. tem mágoa da Rede Globo e de sua cúpula atual?
Franklin - Não. Tive oportunidades profissionais fantásticas na TV Globo. Trabalhei lá durante oito anos e meio. Fui comentarista dos principais jornais. Participei do núcleo que coordenou a cobertura das eleições de 2002, que foi um marco na história da TV Globo. Fui diretor de jornalismo em Brasília, sempre com uma relação excepcional com a Central Globo de Jornalismo. Portanto, sou grato à TV Globo. Aconteceu uma coisa que não entendo.

Folha - Como o sr. pretende se relacionar com a Globo?
Franklin - Digo sempre que não vou olhar para trás. Quem olha para trás vira estátua de sal. Tenho muitos amigos na Globo. Deve haver pessoas que não gostam de mim. Será um relacionamento profissional.

Folha - Qual é a sua avaliação da cobertura da imprensa de modo geral a respeito do governo Lula?
Franklin - Vou falar como acho que deve ser daqui para frente. Profissional, séria, crítica, sem preconceito.

Folha - O sr. está proibido de entrar nos EUA por causa do sequestro de Charles Elbrick?
Franklin - É uma versão que corre, provavelmente verdadeira. Mas nunca pedi visto para o governo americano, até porque imagino que não me dariam. Outras pessoas que estiveram na mesma situação que a minha, de seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, receberam sinais de que não conseguiriam.

Folha - O sr. vai com Lula para Washington no final do mês?
Franklin - Não sei. É uma questão secundária. Tanto os Estados Unidos quanto eu sobreviveremos a esse detalhe.

Folha - O sr. participou da luta armada contra a ditadura militar de 1964. Como avalia hoje aquele período? Valeu a pena? Foi o melhor caminho? Arrepende-se de algo? Faria diferente?
Franklin - Faria muitas coisas diferentes com a visão que tenho hoje. Não me arrependo do que é central. Lutei do lado certo. Lutei do lado da democracia contra a ditadura.

Folha - O manifesto dos seqüestradores do embaixador falava em matar carrascos e torturadores do regime militar. O que acha disso hoje?
Franklin - Fica difícil discutir porque hoje não existe uma polícia como um instrumento de opressão política do Estado sobre as pessoas. Hoje, as pessoas fazem oposição livremente, falam livremente. Naquele época, quem fizesse oposição ao regime estava sob o risco de ser preso, torturado e morto. Eram outras circunstâncias, circunstâncias de guerra.

Com todas as suas diferentes nuances, o povo brasileiro superou a ditadura militar. Participei das manifestações estudantis de 1968 que praticamente inviabilizaram o modelo de ditadura que eles tinham. Então, partiram para o terrorismo de Estado aberto. Em 1974, a vitória do MDB, inviabilizou o terrorismo de Estado. As diretas, em 1984, inviabilizaram a distensão que pretendia manter uma ditadura sob controle. Estive do lado certo. Tenho o maior orgulho de ter lutado. Tenho um certo pudor de bater no peito e ficar proclamando, parece que estou contando vantagem.

Tenho o maior orgulho de ter lutado contra a ditadura. Posso contar tudo o que fiz, inclusive os meus erros, para os meus filhos, os meus netos, discutir abertamente na sociedade.

Os que estiveram do outro lado não podem. Vivi na clandestinidade cinco anos e meio. Vivi cinco anos e meio no exílio. No entanto, não vivo mais na clandestinidade. Muita gente que torturou e matou é clandestina até hoje, até para a sua família.

Folha - O sr. foi preso e torturado?
Franklin - Fui preso durante dois meses, mas não fui torturado. Saí um dia antes do AI-5 [ato institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968, que suspendeu direitos políticos e tornou mais bruta a ditadura militar de 1964]. Se estou aqui até hoje, é porque sou um sujeito que teve muita sorte.

Folha - O sr. participou de alguma ação em que morreram pessoas? Matou alguém?
Franklin - Não, não.

Folha - Nas eleições, Lula chegou a dizer que desejava um acordo com a oposição, encontrar uma agenda comum. É possível haver algum entendimento entre PT e PSDB, duas forças com algumas características em comum, mas que se digladiam?
Franklin - No auge da crise, o Brasil correu o risco de perder uma coisa que ele construiu quase sem saber. E poderia ter perdido sem saber que construiu, que é uma agenda política comum nacional. Essa agenda tem cinco pontos. O primeiro é a democracia. Vamos resolver nossos problemas pela via democrática. Queremos eleições, queremos respeito aos direitos e garantias individuais. A oposição tem o direito de fiscalizar, mas não tem o direito de impedir o governo de governar. O governo tem o direito de governar, mas não tem o direito de impedir a opinião de se expressar. Se há uma direita no Brasil, o que se discute [risos], ela é mais democrática do que era antes. A esquerda é mais democrática do que era antes.

O segundo ponto é a moeda. Queremos estabilidade monetária. Houve uma época em achávamos que podíamos conviver com a inflação alegremente graças ao overnight, ao gatilho salarial, à escala móvel de salário. O preço estamos pagando até hoje.

Terceira questão: responsabilidade fiscal. Não basta o governante ir gastando e pendurar a conta no cabide ali em frente. Temos de ter seriedade com o dinheiro público. Quarta questão. Tudo isso é muito importante, mas é preciso crescer, gerar emprego, gerar oportunidades para a juventude. E a quinta é que não basta crescer. Temos de combater a exclusão social.

Essa agenda vem sendo construída ao longo do tempo. Parte dela foi construída durante a ditadura. Parte no governo Fernando Henrique Cardoso. Parte no primeiro governo Lula. Essa agenda corresponde a um pensamento de 70% a 80% das forças políticas do país. A vantagem disso é que a luta política pode se dar num terreno razoavelmente delimitado. Nessa crise, quase jogamos isso pela janela. Se a crise tivesse ido um pouquinho mais longe e se o povo brasileiro não tivesse dito "calma, pessoal, eu não quero perder essa coisa".

Folha - O que seria ter ido mais longe? A oposição patrocinar o impeachment do Lula? O Lula tentar dar uma guinada autoritária?
Franklin - Sim. Por que não partiram para o impeachment? Por que o Lula não endureceu? Porque a sociedade disse: "Não quero". Temos essa agenda comum. Grandes programas que começam a dar certo são apoiados por muito mais partidos do que os que estão no governo. O Bolsa Família era tido como uma "Bolsa Esmola". Hoje, a maioria das forças políticas reconhece que é um vigoroso programa de transferência de renda que deve ser mantido e aprimorado. É uma conquista que não dá para abrir mão. O atual programa de melhoria da qualidade da educação incorpora coisas que vieram do governo FHC. Nos últimos 25 anos, construímos coisas em comum e quase jogamos fora na crise.

Folha - Lula se queixa de FHC ter sido muito duro com ele na crise. FHC se queixa de Lula não ter mantido a cordialidade a que ele deu início com a transição de governos. O sr. acha que eles deveriam se encontrar e conversar?
Franklin - Os dois precisam conversar. Seria muito bom para os dois e para o país, mantendo as opiniões e divergências. Esse negócio de agenda comum não é aderir ao governo. A oposição está na oposição por vontade do eleitor. O governo está no governo porque o eleitor mandou. Cada macaco no seu galho. E, do seu galho, cada um pode conversar com o outro.

terça-feira, março 13, 2007

Mídia democrática: TV do governo federal pode sair neste ano

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, apresentou na segunda-feira (12) ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um anteprojeto de criação da Rede Nacional de Televisão Pública — uma espécie de emissora de TV do Executivo para divulgar as ações do governo federal. Pelo projeto, seriam gastos R$ 250 milhões em quatro anos.

A idéia é de que a rede comece a funcionar ainda neste ano, com o início da operação comercial da TV digital, previsto para dezembro. De acordo com o projeto, R$ 100 milhões seriam gastos no primeiro ano, na compra de equipamentos como transmissores de sinal de televisão, e os outros R$ 150 milhões seriam aplicados ao longo dos três anos seguintes na expansão da rede.

A intenção, segundo o ministro, é fazer com que as transmissões desse canal cheguem às cidades pequenas do país. A proposta apresentada a Lula, segundo Costa, ainda é preliminar e será discutida com a Casa Civil antes de ser finalizada.

O ministro explicou que ainda não está definido se será aproveitada a estrutura da Radiobrás — que tem a TV Nacional — ou se será criada uma nova estrutura. Segundo ele, a Radiobrás não está presente em todas as cidades, alcançando só 30% dos municípios brasileiros.

Costa disse ainda que o projeto deve envolver as Câmaras municipais de vereadores e as Assembléias Legislativas estaduais para o compartilhamento dos benefícios e dos custos. Os recursos a serem aplicados pelo governo federal viriam do Orçamento Geral da União.

Outros canais
A criação de canais públicos de televisão está prevista no decreto que estabeleceu regras para a implantação da TV digital no Brasil. Além da TV do Executivo, que terá a prioridade do governo, está prevista a criação de canais da cultura, da educação e da comunidade.

Para isso, já está planejada para este ano a liberação de dez canais — do número 60 ao 69. Segundo Hélio Costa, cabe ao Ministério das Comunicações tornar disponíveis os canais — mas o conteúdo a ser divulgado será da competência de outras áreas do governo, como a Secretaria-Geral da Presidência da República, por exemplo.

As regras para a implantação da rede poderão ser definidas em portaria do seu ministério. “Estamos, na verdade, preparando o ambiente digital”, disse Costa, que admitiu começar o projeto com equipamentos analógicos, acrescentando que a transição do sistema analógico para o digital vai levar ao todo dez anos.

“Não podemos é ficar esperando dois, três, quatro anos para termos uma rede pública de televisão digital. Nós começamos analogicamente e depois fazemos a conversão.” Também está em estudo no governo a criação de uma rede pública de rádio. A idéia partiu de um pedido pessoal de Lula, que quer estabelecer um “canal de comunicação direto com o povo”, numa espécie de Voz do Brasil 24 horas no ar.

Bom para emissoras de rádios
A proposta agrada também aos radiodifusores, que vêm aí oportunidade de acabar com a obrigatoriedade de veicular a Voz do Brasil em cadeia nacional. A estimativa de técnicos do setor é que com R$ 50 mil seja possível montar uma estação de rádio regional, no interior, que alcance cerca de cinco cidades.

Em janeiro deste ano, ao anunciar que o projeto da rede nacional de rádio estava sendo estudado, Costa cogitou a possibilidade de aproveitar nessa emissora o conteúdo já produzido pela Radiobrás e pelas rádios Câmara, Senado e Justiça.

Diferentemente do previsto para a televisão — que deverá ter vários canais públicos —, a rede de rádio seria apenas uma estação, com uso compartilhado da grade de programação por diferentes setores.

Fonte: O Estado de S.Paulo - www.txt.estado.com.br/editorias/2006/11/05/pol-1.93.11.20061105.10.1.xml

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Comportamento feminino ou estratégia de marketing?

Por Ligia Martins de Almeida em 27/2/2007, no site Observatório da Imprensa.

"As princesinhas estão por toda parte. De coroa dourada e saias coloridas, elas vão à escola, ao playground e ao dentista."

É assim que a revista Veja começa a matéria de comportamento da semana (edição nº 1997, de 28/2/2007): "Todas querem ser princesas". A dúvida, para o leitor, é se é mesmo de uma matéria de comportamento ou apenas uma desculpa para promover um produto, no caso as bonecas de princesa.

Se for comportamento, a revista deveria ter dito quantas são essas meninas que aderiram à nova mania. Parece, pela matéria, que são apenas algumas meninas de classe média alta que têm acesso a roupas caras, dentistas que também se vestem de princesa e pais que podem pagar 75 reais por um brinquedo. Também poderia ter dito quantas e qual o perfil das dentistas que se submetem a representar uma caricatura para ganhar a clientela. É claro que essa a mania não chegou às camadas normais da classe média e muito menos à periferia, onde 75 reais representam uma compra básica de supermercado.

Enfim, é um caso particular, e não uma tendência. Talvez tenha sido apenas um erro de retranca. Onde se lê "comportamento", deveria se ler "consumo" ou "marketing". Ou será que os editores de Veja acreditam que basta juntar algumas declarações para transformar qualquer matéria em análise de comportamento?

Por que um príncipe encantado?

Um marqueteiro, uma mãe consumidora e uma psicóloga foram os escolhidos pela revista para justificar a retranca "comportamento":

Para o marketeiro: "O gosto pelas princesas é inerente às meninas", disse Mooney [chefe da divisão de produtos de consumo da Disney] à Veja. "Elas adoram os finais felizes e pensam que são princesas de verdade."

O depoimento da mãe consumidora: "Eu gostava muito das princesas quando era criança, mas não havia todas essas coisas para comprar".

A palavra da psicóloga: "‘O romantismo e a vaidade são valores femininos que independem da época ou do lugar em que a mulher vive’, diz a psicóloga Sara Kislanov, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro".

Mas como ficam as mulheres que trabalham, lutam pela independência financeira, fazem carreira como executivas e buscam um companheiro em vez de um príncipe encantado? Como ficam as leitoras que querem que suas filhas, desde pequenas, brinquem em igualdade de condições com os irmãos?

Óbvio anúncio comercial

Para elas, a revista reservou um parágrafo que deve servir para diminuir a resistência quanto às bonecas que representam o que há de mais caricato sobre o comportamento feminino:

"Algumas feministas – americanas, naturalmente – preocupam-se com conceitos retrógrados que possam ser transmitidos pelas bonequinhas. Branca de Neve, em especial, surgiu num desenho animado de 1937. O modelo feminino da época era o da menina prendada, sem grandes iniciativas e cujo principal atributo era a beleza. As meninas deveriam ser guardadas em casa até ser escolhidas por um príncipe encantado. Preocupam-se à toa. No pacote Disney há princesas para todos os gostos e temperamentos. Branca de Neve, Aurora (Bela Adormecida), Cinderela são do tipo tradicional, à espera do Príncipe Encantado. Mas a chinesa Mulan se veste de homem para ir à guerra em defesa do reino e a sereia Ariel tem comportamento independente, tipicamente moderno."

E para as leitoras que ainda não foram contaminadas pela mania de princesa das filhas, a revista chama para o site, onde promete dizer "que tipo de princesa sua filha é". Três testes absolutamente idiotas que prometem tirar as dúvidas das leitoras – as quais, certamente, terão mais facilidade na hora de escolher a boneca para suas filhas. Isto Porque se há uma coisa que os editores de Veja sabem é que o que sai na revista, se ainda não é moda, acaba virando. Portanto, nada melhor do que dizer que algum produto é mania para que todo mundo queira comprar.

Melhor ainda se a dica de consumo vier disfarçada como matéria de "comportamento": um bom disfarce para um óbvio anúncio comercial.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

A visão equivocada de um jornalista sobre a propaganda de governo

Propaganda do governo não elege candidato

Matéria de Carlos H. Knapp, veiculada em 25/07/2006.

A Justiça Eleitoral impede, nos meses que antecedem as eleições, que o governo federal divulgue, por meio de campanhas de publicidade, suas iniciativas e os resultados positivos de sua gestão. Acredita-se que tais campanhas, se realizadas, poderiam favorecer a candidatura Lula. Antes da intervenção da Justiça Eleitoral, os adversários do presidente e a mídia já denunciavam esse uso indevido da "máquina do governo".

Até que ponto anúncios elogiando o governo podem ter influência numa eleição? Até que ponto a propaganda oficial consegue condicionar o comportamento cívico do cidadão? Em 2002, no mesmo período que antecedia as eleições presidenciais, o governo federal mandou publicar na mídia nacional uma intensa campanha para celebrar os "Oito Anos do Real". Os anúncios da campanha contavam os feitos dos dois governos de Fernando Henrique nas suas várias áreas de atuação – infra-estrutura, educação, saúde, saneamento etc. – e demonstravam como o país tinha avançado no "rumo certo" desde que a introdução do real tinha neutralizado a inflação.

Todos os anúncios na TV, nas revistas, nos jornais, eram assinados pelo governo federal e estavam identificados por um oito estilizado, simbolizando os oito anos de real. Você não se lembra? Ninguém se lembra. Eu mesmo só me lembro porque sou do ramo e na época tive relação com o assunto.

Na campanha eleitoral que se seguiu, os candidatos da oposição insistiram em afirmar que "esse governo não fez nada". Nos debates de televisão, Lula, Garotinho e Ciro Gomes submeteram José Serra, o candidato do governo, a interpelações calcadas na mesma tecla – "esse governo não fez nada". Ora, a afirmação aparentemente não tinha razão de ser porque, três ou quatro meses antes, muitos milhões tinham sido gastos em publicidade para revelar que o governo tinha, sim, feito muita coisa. Ou será que ninguém tinha notado as páginas duplas em Veja, os comerciais na Rede Globo, as páginas inteiras de jornais?

O próprio Serra, acuado nos debates, parecia também não ter visto a publicidade, porque em lugar de contestar enfaticamente a acusação, repetindo informações dos anúncios, se refugiava em evasivas.

Expectativa frustrada

A dispendiosa campanha "Oito Anos de Real", publicada às portas das eleições de 2002, não exerceu qualquer influência sobre os candidatos e sobre os eleitores. Foi inócua, esforço e dinheiro público desperdiçados. Do mesmo modo, se não tivesse sido vetada pela Justiça Eleitoral, a publicidade do atual governo federal teria pouco ou nenhum efeito perceptível sobre as eleições de 2006.

A explicação é simples: para se comunicar com o cidadão, o governo sempre insiste em usar a forma de comunicação errada. E a comunicação não se dá.

Ao empregar anúncios criados pelas agências e veiculados em espaços pagos, o governo adota a forma e o estilo sedutor da publicidade comercial para tentar vender informação ao consumidor. Mas este não encontra nessa publicidade "o que comprar"; ele a ignora porque as mensagens que falam de feitos oficiais como se fossem produtos não prometem satisfazer desejo de consumo algum.

O formato, a linguagem e o ambiente do anúncio comunicam uma expectativa que é frustrada por um conteúdo equivocado. As informações que o governo tem a dar não interessam ao consumidor e sim ao cidadão – e para se comunicar com este interlocutor a linguagem, a forma e o espaço são necessariamente outros.

Vício recorrente

Em nenhum país democrático o poder público emprega os artifícios da propaganda comercial para dar conta de seus atos (em certos países a propaganda oficial é proibida por lei). Nesses lugares a sociedade inteira fica informada das ações do governo porque este se comunica com o cidadão pelo meio adequado, a imprensa. Lá, em vez de anúncios autolaudatórios, o cidadão lê e ouve notas, notícias, editoriais, comentários, debates, reportagens, enfim, matérias publicadas espontaneamente pela mídia que se originam em entrevistas, informações, dados ou declarações oferecidas pelo governo.

Prestar contas ao cidadão, comunicar à sociedade o que faz um governo empossado por essa sociedade, é um dever que pode ser cumprido por intermédio do jornalismo. Para tanto, as autoridades e os responsáveis pelas políticas públicas devem dar a informação aos jornalistas para que estes possam transformá-la em notícia e transmiti-la livremente à sociedade, atribuindo a essa notícia a importância relativa que possui.

Por que no Brasil existe a cultura, ou melhor, o vício da propaganda de governo? Esta é uma outra história que fica para uma outra vez.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Francamente!!!!!!!


As capas dos jornais de três grandes conglomerados de comunicação do Brasil, que publicam jornais em São Paulo, revelam em dois deles - grupos Folha e Estado - a proteção ao governo de José Serra.

Como se pode ver acima, apenas o jornal Diário de S. Paulo, das Organizações Globo, publicou a paralisação das obras da linha 4 (amarela) do Metrô de São Paulo na manchete. Na Folha, o assunto ficou abaixo da dobra da primeira página, portanto sem visibilidade para quem olha o jornal dobrado nas bancas. O Estadão disfarçou um pouco a proteção a Serra e deu no alto, mas escondeu a notícia dentro do caderno Metrópoles, mesma opção feita pela Folha, que publicou a história em uma página interna e par do caderno cotidiano.

As obras da linha amarela do Metrô paulistano são as mais caras em andamento no Brasil. Um desabamento no início do ano já matou 7 pessoas e deixou uma cratera no coração do bairro de Pinheiros. Assim, custa a crer que a paralisação dos trabalhos não mereça da imprensa de São Paulo nem sequer a capa de seus cadernos locais.

No caso da Folha, em que a proteção ao tucano é mais evidente, o jornal não apenas deu o menor destaque para a paralisação das obras em sua primeira página como também publicou uma pequena reportagem em que "especialistas garantem" que os problemas de soldagem encontrados em uma das estações não oferece riscos de desabamentos, contrariando o laudo divulgado anteontem pelo Jornal Nacional da TV Globo.

Alguém precisa avisar ao pessoal do Estadão e da Folha que o problema do Metrô é na verdade uma herança que Serra recebeu de seu antecessor e correligionário Geraldo Alckmin (fogo no ninho tucano). A lambança foi feita na gestão anterior e nada tem a ver com Serra. É claro que não é bom para os tucanos reconhecer erros passados, mas no caso específico de Serra os erros na construção Metrô podem significar uma pá de cal nas pretensões de Alckmin em disputar a prefeitura de São Paulo em 2008 ou a presidência da República em 2010. Em suma, parece que os jornalões paulistas estão sendo mais realistas do que o Rei... (texto estraído do Blog Voto Lula)

Já em seu blog, José Dirceu denunciou um fato relevante no caso do Metrô de SP, que a imprensa descaradamente jogou debaixo do tapete:

Segundo o ex-ministro, uma nota do Painel da Folha (só para assinantes), intitulada "Blindagem", registrou que o Metrô de São Paulo contratou o escritório de Miguel Reale Júnior para defender seus diretores em ações criminais motivadas pelo acidente nas obras da linha 4. A empresa do governo alegou "inexigibilidade de licitação" para escolher o advogado, que foi ministro de FHC e tesoureiro da campanha presidencial de Geraldo Alckmin.

José Dirceu se diz curioso para saber como a nossa imprensa vai tratar essa informação:
- Imaginem o escândalo que fariam se coisa semelhante ocorresse no governo Lula? Contratar sem licitação um escritório de um ex-ministro e tesoureiro da campanha presidencial para defender uma empresa do governo. O mundo, certamente, cairia sobre as nossas cabeças. Com a palavra, o Ministério Público Estadual.

Diante desses fatos, me pergunto cadê a moralidade defendida pela imprensa??? Fico impressionado com a falta de ética de alguns jornais, que se apropriam do rótulo de defensores do interesse público (consolidado no pós-ditadura) para defender o interesse do grupos de comunicação a que pertence.

Depois, fica jornalista dizendo publicamente que a desinformação da sociedade brasileira é reflexo do descaso do governo com a democratização da comunicação, uma vez que investe pesadamente em publicidade e esquece de implementar políticas públicas que garantem o amplo acesso dos cidadãos à informação. Francamente!!!!!!!

terça-feira, fevereiro 20, 2007

GRECIN 2010

Por PCosta

Quando uma empresa está devendo Deus e todo mundo, sem crédito na praça, com o imagem manchada e o nome dos sócios mais sujos que pau de galinheiro, a primeira idéia de tantos administradores sem escrúpulos que existem por aí é:
- Vamos falir a firma, dar o cano nos fornecedores, nos empregados, usar o dinheiro para abrir outra empresa, em outro endereço e continuar operando na praça.

Rapidamente o sócio que se acha mais esperto, metido a publicitário, acrescenta:
- Podemos colocar um nome ”da moda” e criar uma marca super transada. Todos pensarão que é uma nova empresa no mercado. Com alguns toques de marketing, vamos arrasar.

Porém, o sócio mais moderado, cauteloso, com a pulga atrás da orelha, diz ter dúvidas quanto a suposta ingenuidade e falta de memória das almas alheias.
- Estou preocupado com minha imagem, pois a empresa está há anos no mercado e todos sabem que sou um dos donos. Esse rolo todo pode comprometer meus planos de concorrer a uma vaga na Assembléia Estadual daqui á 4 anos.

- Bobagem!!! - interrompe o "criativo de plantão".
- Para tudo tem jeito. O negócio é simples. Vamos usar parte do dinheiro para mudar o nosso visual. Comprar roupas, contratar personal trainner, fazer plástica e até pintar o cabelo. Fiquei sabendo de uma tinta fantástica, que o marqueteiro do PFL está recomendando para todos os políticos do partido mudarem a aparência!!!

-Mesmo. Não sabia. Com essa tinta ficarei diferente e na próxima eleição ninguém lembrará que sou um dos donos da empresa falida. Qual é o nome desse santo produto???

- Grecin 2010.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

A utilidade pública da publicidade

Por PCosta

Nem o ¨espirito¨ mobilizador desencadeado pelas Diretas já, tão pouco a construção de uma agenda social demandada pela Constituição de 1988 conseguiram que governo, sociedade e agentes de comunicação iniciassem um profundo debate sobre a utilização da publicidade governamental como instrumento de defesa do interesse público.

Na Europa, por exemplo, esse debate começou no início da década de 70, pegando carona na efervescência das discussões que definiram o papel das instituições que compõem o Estado no fortalecimento da democracia.

Naquele época, atores e grupos civis, organizados e preocupados com o poder de penetração dos veículos, passaram a exigir que o governo, além de normatizar o mercado da comunicação, veiculasse informações de Estado com o intuito de fortalecer a cidadania, estimular a consciência política e principalmente, ampliar o diálogo entre poder público e sociedade.

No Brasil, contudo, um importante passo foi dado rumo ao questionamento sobre a utilidade da publicidade no atendimento do interesse do cidadão. A agência de propaganda NovaS/B, que se intitula ¨a primeira agência do Brasil com expertise em Comunicação de Interesse Público¨, lançou o movimento Diga Não a Obesidade Infantil - www.diganaoaobesidadeinfantil.com.br.



Com layout bem resolvido – foto grande, título em destaque e texto com alto teor informativo, a campanha vai direto ao ponto: levanta um problema de saúde pública, diz quais as consequências da obesidade infantil e pontua os caminhos para o cidadão combater a doença.



Sem dúvida, a iniciativa é importante para colocar em pauta o debate sobre o papel da comunicação na defsa do interesse público. Espero que não caia no esquecimento daqui alguns meses.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Reflexão sobre a relação entre mídia e política

Os paradestinatários, a vez dos outsiders, a política velada pela mídia, a informação vem na forma de entretenimento. ..

Resumo da entrevista do politicólogo argentino Gustavo Martinez Pandiani ao Jornal La Nacion.

1- A vídeodemocracia em que vivemos prioriza os formatos audiovisuais em detrimento dos textuais. Como diz Umberto Eco: a TV é veneno, mas também é o antídoto. Os políticos chegam pela forma, mas depois devem encontrar a maneira de transmitir o conteúdo.

2- Este cenário é inevitável e muda a forma de fazer política. Por isso digo que os políticos devem aprender a viver nessa plataforma. A erupção da mídia e especialmente da audiovisual modificou também a lógica da territorialidade da política. Se está posicionado em um imaginário que nem é ideológico, nem distrital. Não é um referente de esquerda, nem de centro, nem de direita.

3- Se consome informação na forma de entretenimento. Tudo entra por aí: futebol, política, crime. Hoje a tonalidade do discurso se despolitiza. A lógica da política é complexa, pois nada se explica por um só fato. A lógica do entretenimento é a simplificação. Quando chocam as formas se impõe a simplificação. E é assim hoje no discurso político.

4- Identifico uma forte neutralidade discursiva que iguala direita e esquerda. E é a mídia que faz com que a mensagem seja neutra. Através da mídia os políticos não falam nem aos seus nem a seus adversários, mas aos que Eliseu Verón chamava "os paradestinatá rios", que são os que nem te amam, nem te odeiam. E estes que são a maioria não querem ouvir mensagens
políticas.

5- Eu diria que a mídia velou a política. A ideologia vinha mal de antes. Em todo o caso a mídia desideologizou o discurso e permitiu uma plataforma massiva que desembocou num culto à personalidade. As pessoas se identificam mais com os dirigentes que com os partidos.

6- A sociedade está buscando política fora da política. É lógico que um não político ganhe um processo político e o conduza? Não. Não é natural que os emergentes conduzam um processo político.

7- O pior que pode passar a um mau candidato é ter uma campanha brilhante que exagere suas virtudes e propostas e oculte exageradamente as deficiências, porque um mau produto quando chega ao mercado termina causando insatisfação. Por isso o marketing político é um marketing "chanta". O papel do outsider está desenhando dentro da mídia.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A morte por desinformação!!!

Por Paulo Nassar, publicado no site do Observatório da Imprensa.

O barco está afundando. E dentro dele a família, a comunidade, a cidade, o país, o mundo e instituições como a escola, o hospital e a justiça vão junto. Muitos já apontam uma crise sistêmica de ordem moral, social, econômica, educacional e ambiental.

Os temas da grande crise estão no cotidiano, transformados em manchetes, em ensaios acadêmicos, em tema de telenovela: aquecimento global, exclusão social, poluição de todos os tipos. As cidades brasileiras vivem, com freqüência impressionante, acontecimentos que interferem, modificam, pioram a vida de milhões de pessoas.

E, agora, a cada semana, notícias de grandes acidentes, de ineficiência dos transportes, defeitos de logística, violência urbana que atinge intencionalmente os indefesos cidadãos, inclusive os pobres, num viés de terror e silêncio.

No perfil da crise estão os ataques atribuídos ao PCC, em São Paulo, o acidente com o Boeing da Gol, no Pará, o descontrole aéreo em todos os aeroportos, a venda de mais assentos do que poltronas das aeronaves, os ataques a ônibus e delegacias de polícia no Rio de Janeiro, o acidente nas obras do metrô de São Paulo.

Impostos vergonhosos

Como resultado imediato, numa triste e simples soma: centenas de mortos e feridos, milhões de habitantes afetados nas mais diversas proporções e conseqüências. Em todos estes casos, um ponto em comum: fracassados processos de comunicação organizacional das empresas e instituições relacionadas a estas crises.

Deste fiasco, depreendemos que, a começar dos líderes políticos aos responsáveis pela gestão de sistemas técnicos, não sabem o que dizer. São incapazes de atender à justa e necessária demanda por informações da sociedade por meio da imprensa.

A origem desta incapacidade é a falta de vontade política para implantar na administração processos organizacionais, permanentes e regulares, voltados para a comunicação pública. Nas instituições de Estado, os comunicadores não fazem comunicação pública. Abrem mão de seu papel, função e responsabilidade e fazem "marquetagem" dos políticos da vez, apesar de que sua razão de ser e existir ali é o cidadão.

Da mesma forma que não existem leitos nos hospitais e vagas nas escolas suficientes e de qualidade, falta também informação pública de verdade.
Somos vítimas de um sistema político que, além de usar mal nosso suado e escorchado dinheiro, espoliado por impostos vergonhosos, nos sonega informação.

Assim, a cada nova crise, morremos mais um pouco de desinformação.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Se essa moda pega no Brasil.........

Por PCosta



Visibilidade!!!! Essa é a palavra que mais interessa a qualquer candidato a cargo público. Querem exposição midiática favorável. Aparecer nos principais veículos de comunicação - jornais, revistas, rádio e televisão, de modo que renda o máximo de visibilidade e benefícios junto ao público.

Para tanto, uma das forma de manter o candidato na mídia é produzir artificialmente fatos que possam simplesmente converter-se em notícia. De preferência, fatos que são favoráveis as pautas dos grandes veículos.

Nesse sentido, a constante exposição de imagem é uma tentativa estrategica de construir um CACIFE eleitoral imaginário, a fim de potencializar publicamente a percepção de que determinado candidato tem mais chances de vitória sobre os outros.

E ao que tudo indica, não só os marqueteiros políticos entendem de ferramentas de comunicação, pois se depender dos costureiros, os americanos ¨vestirão¨ a senadora Hillary Clinton das pés a cabeça, tornando-a cotadíssima para assumir a Casa Branca em 2008.

Mas por outro lado, se essa moda pega no Brasil.......... brevemente seremos surpreendidos nas ruas com o rosto da Erundina (PSB-SP), da Idelí Salvati (PT-SC) ou da Zulaiê Cobra (PSDB-SP) estampados em saias e camisetas. Ou quem sabe do Clodovil (PTC-SP) ???

segunda-feira, janeiro 29, 2007

A desqualificação da propaganda

Por PCosta


Matéria publicada na Folha de S. Paulo, dia 28/01/07

A declaração de Gustavo Franco, economista e ex-presidente do Banco Central na gestão FHC (1997/99) é legítima no jogo político moderno, uma vez que partidos e atores públicos usam veículos de comunicação como arena de confronto de posições, na intenção de sustentar argumentos e anular qualquer avanço do interesse oposto.

Porém, a declaração do economista deve ser recebida pelo mercado publicitário com preocupação, já que a PROPAGANDA foi reduzida a termo desqualificador do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal. Ainda conforme Franco, a propaganda foi estrategicamanete empregada como ferramenta de entretenimento, a fim de ocultar a irrelevância que o PAC terá no desenvolvimento econômico e sociual do Brasil.

Pior que reduzir a propaganda a mero instrumento de visibilidade de pessoas e grupos políticos, é impor um discurso político que transforma a PROPAGANDA em adjetivo que desqualifica, entre outras coisas, a transmissão de informações de Estado em conformidade com o interesse público.